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A tempestade que aí vem – O Jornal Económico


Nestes tempos em que o impensável aconteceu e a guerra regressa ao continente europeu, a figura de Winston Churchill tem sido recordada um pouco por toda a parte. Mas este artigo não é sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia, ou sobre o papel que a liderança churchilliana de Zelesnky terá na cada vez mais provável vitória sobre o invasor, isto é, no falhanço da tentativa russa de conquistar a totalidade da Ucrânia instalar em Kiev um governo fantoche. A Rússia até pode conquistar parte da Ucrânia e continuar a infernizar a vida a toda a Europa durante muitos anos, mas provavelmente não conseguirá tomar Kiev.

Ucrânia à parte, esta crónica começa por Churchill porque a situação que Portugal enfrenta do ponto de vista económico se assemelha muito à figura da “gathering storm” que  serve de título ao primeiro de seis volumes em que o estadista britânico contou a história da Segunda Guerra Mundial.

“Gathering storm” é uma daquelas expressões que soam melhor em inglês e não têm uma tradução fácil em português (“a tempestade reunida?”), mas que diz tudo sobre o que nos espera: tal como acontece na Europa do início dos anos 30, a vida decorre com normalidade, apesar da pandemia e do impacto da guerra sobre a economia. Porém, lá longe, no horizonte, as nuvens adensam-se e ficam cada vez mais escuras, ameaçando descarregar rios de água, raios e granizo sobre os seres humanos e toda a natureza que se encontra debaixo do céu.

Essas nuvens são cada vez mais visíveis, até para os distraídos: preços a subir de forma descontrolada, sem que os salários os acompanhem; juros a ameaçar subir para níveis incomportáveis;  incerteza sobre o futuro, com o regresso de velhos fantasmas do tempo da Guerra Fria, incluindo o medo de um holocausto nuclear.

Neste contexto, devido às ondas de choque da conjuntura internacional, Portugal enfrenta um risco sério de aumento das tensões sociais ao longo dos próximos meses, as quais poderão ser exploradas por extremistas de esquerda e de direita.

Por outro lado, a subida dos juros constitui um fator adicional de pressão para o Estado português. No final de 2020, quase 80% da dívida pública portuguesa pagava juros negativos. Hoje, essa percentagem já é de apenas 5%, indicando que a era do dinheiro barato está de facto a chegar ao fim, com tudo o que isso implicará para o Estado, as famílias e as empresas.

A democracia é muitas vezes descrita como ineficaz perante situações de crise, quando comparada com as ditaduras. Mas esta é uma daquelas ideias feitas que não correspondem à verdade e que se explicam, em primeiro lugar, pela capacidade que as ditaduras têm de omitir as suas falhas e fracassos, mediante o recurso à propaganda e à desinformação. Até que, como vemos nas falhas do exército russo na Ucrânia, a verdade venha finalmente ao de cima.

A democracia portuguesa terá de se mostrar à altura dos desafios que aí vêm, com instituições como o Conselho Económico e Social e a concertação social a desempenharem um papel fundamental na resolução dos problemas e na busca de soluções para os problemas que ameaçam o país. Com um Governo que, embora maioritário, ouça os outros partidos e a sociedade civil e uma Oposição que cumpra o seu papel.





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