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A desglobalização em curso


A evolução do peso do comércio internacional no PIB mundial, que aqui tomaremos como sinónimo de globalização, tem atravessado várias fases nos últimos 150 anos. Depois de um crescimento significativo, até pouco antes da 1.ª guerra mundial, entrou num período de retração que apenas começaria a ser revertido após a 2.ª guerra mundial.

O retrocesso espelha-se no facto de que, só em meados da década de 1970, o comércio internacional regressou ao peso que tinha antes da 1.ª guerra mundial. Seguiu-se um período de aprofundamento da integração económica, com um crescente envolvimento dos países emergentes, a que a crise de 2008 veio pôr fim, dando-se início a uma fase de algum abrandamento (slobalization, no jargão económico) e, mesmo, retração com o ressurgimento de algum protecionismo (EUA) gerador de respostas no mesmo tom. Estava-se nesta indefinição quando a pandemia veio acelerar a disrupção das cadeias de produção e abastecimento, estimulando os discursos nacionalistas.

Quando, apesar de tudo, o comércio internacional parecia estar a retomar, eis que a invasão da Ucrânia nos vem recordar que a geopolítica desempenha um papel crítico nas relações económicas entre países. No caso, o reforço da NATO poderá refletir-se em relações económicas mais estreitas entre os seus países membros, enquanto Rússia e China se aproximarão. Se o conflito e as consequentes sanções se prolongarem, e estes blocos se sedimentarem, o retrocesso na globalização será inevitável. As consequências vão, desde o abrandamento do crescimento e a inflação (o regresso da estagflação), ao aumento das disparidades internacionais, reforçando os efeitos que a pandemia teve sobre os países emergentes cujo peso, na economia mundial, retrocedeu aos níveis de meados da década de 2010.

É consensual que a globalização carecia de regulação e melhoria. Já a desglobalização é um mal em si mesma. Os processos que lhe subjazem auto alimentam-se, gerando clivagens e assimetrias internas e internacionais, induzindo tensões económicas e geopolíticas propícias ao conflito. Empobrecedoras. A história di-lo.

Alberto Castro, economista e professor universitário





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